Marielle Franco, vereadora do PSOL, é assassinada no centro do Rio na saída de evento que reunia ativistas negras

Morte-de-mulher-negra
Política e seu motorista foram mortos no Estácio, na região central do capital. Contrária à intervenção federal, a política havia criticado dias antes ação da PM em Acari

“Sou fruto do pré-vestibular comunitário”, disse Marielle Franco para lembrar quando anos atrás se engajou num cursinho no complexo da Maré, uma das maiores favelas do mundo, para ter alguma chance nos vestibulares mais concorridos do Rio de Janeiro. Passou o microfone para outra mulher negra da roda e pediu apoio e compartilhamentos de seus seguidores no Facebook, que seguiam a transmissão ao vivo do evento Roda de conversa Mulheres Negras Movendo Estruturas. Pouco tempo depois, seu rosto e suas palavras e sua trajetória de ativista negra inundariam as redes em choque pelo horror: a vereadora do PSOL, a quinta mais votada no Rio em 2016, havia sido assassinada a tiros na região central do Rio de Janeiro sob intervenção federal militar.

O crime nesta terça-feira aconteceu na rua Joaquim Palhares, no Estácio, e o motorista que estava com ela também foi assassinado. De acordo com a imprensa carioca, a vereadora estava acompanhada ainda da assessora Fernanda Chaves, que sobreviveu. Segundo o jornal Extra, a Polícia Civil encontrou pelo menos oito cápsulas no local. Os relatos preliminares dão conta de que os criminosos abriram fogo contra o carro. Nenhum objeto foi levado. “Há sinais de execução”, disse, emocionado, o deputado estadual Marcelo Freixo, de quem Marielle foi correligionária no PSOL e assessora, no Jornal da Globo. Segundo o mesmo telejornal, crime de mando ou execução é também a principal hipótese com a qual a polícia trabalha neste momento.

O PSOL também lançou nota, que pede apuração: “Exigimos apuração imediata e rigorosa desse crime hediondo. Não nos calaremos!” Dias antes do assassinato, Marielle Franco havia criticado a ação supostamente violenta dos policiais na comunidade do Acari, no Rio. “Precisamos gritar para que todos saibam o está acontecendo em Acari nesse momento. O 41° Batalhão da Polícia Militar do Rio de Janeiro está aterrorizando e violentando moradores de Acari. Nessa semana dois jovens foram mortos e jogados em um valão. Hoje a polícia andou pelas ruas ameaçando os moradores. Acontece desde sempre e com a intervenção ficou ainda pior”, escreveu, na citação do jornal O Dia de quatro dias atrás. Em 28 de fevereiro, ela havia se tornado relatora da comissão destinada a acompanhar a controversa intervenção federal. Uma imagem com a frase “não foi assalto” se espalhava rapidamente pelas redes na noite de terça-feira.

Marielle, de 39 anos, se formou pela PUC-Rio e fez mestrado em Administração Pública pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com foco nas UPPs. Ela coordenou a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), ao lado do deputado Marcelo Freixo. A ativista decidiu pela militância em direitos humanos após ingressar no pré-vestibular comunitário – justo o momento que lembrou nesta terça no evento com outras mulheres negras – e com a morte de uma amiga a tiros. Ela deixa ao menos uma filha de 19 anos.

Repercussão

O assassinato de Marielle e de seu motorista coloca em xeque mais uma vez as políticas para conter a criminalidade no Rio. “Estou devastado (…) Temos estado juntos na longa militância. Estive com ela dois dias antes de viajar, semana passada. Faltam palavras para expressar o horror e mal posso imaginar o que se passa na cabeça de sua filha e de sua família. E o motorista, sua família, um trabalhador inocente, honrado? A polícia confirma que foi execução”, desabafou nas redes sociais o cientista político Luiz Eduardo Soares, especialista em segurança pública. Soares lembrou o caso da juíza Patricia Acioly, assassinada em 2011 por policiais militares, afirmando que “é possível que o mesmo tenha acontecido” com Marielle. “(…) quando a população vai despertar e entender que a insegurança pública começa nos segmentos corruptos e brutais das polícias, e que não podemos conviver mais com esse legado macabro da ditadura. Vamos continuar falando em “desvios de conduta individuais”? O que fazer, agora, além de chorar?”, escreveu Soares.

A Anistia Internacional divulgou uma nota pedido que o Estado, através dos diversos órgãos competentes, faça uma investigação imediata e rigorosa do assassinato da vereadora. “Marielle Franco é reconhecida por sua histórica luta por direitos humanos, especialmente em defesa dos direitos das mulheres negras e moradores de favelas e periferias e na denúncia da violência policial. Não podem restar dúvidas a respeito do contexto, motivação e autoria do assassinato de Marielle Franco”.

Manifestações contra o genocídio de jovens negros no Brasil serão realizadas hoje (15) às 17h em várias cidades:

Belo Horizonte – Praça da Estação – Avenida dos Andradas, 201

 

Fonte: El Pais

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