Caminhada da Fraternidade quebra tabu e exalta as diferenças pelas ruas de Teresina

Caminhada-da-diversidade
Foto: site Cidade Verde

Diversidade, variedade, multiplicidade, heterogeneidade. Sabe o que estas palavras têm em comum? Todas simbolizam diferenças. Diferenças que podem ser de cor, sexo, raça, religião, estilo de vida e tantas outras. É tempo de aceitar e respeitar o diferente. Esse foi o recado dado por 70 mil pessoas que participaram da 23ª edição da Caminhada da Fraternidade na manhã deste domingo (10). A concentração, como é tradicional, aconteceu no entorno da igreja de São Benedito com uma missa celebrada ali do lado pelo arcebispo metropolitano de Teresina, Dom Jacinto Furtado de Brito Sobrinho. Durante a homilia, o religioso lembrou o mandamento de Jesus que traduz todo o sentimento da caminhada este ano: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”.

“Nos sentimos como destinatários dessa bem aventurança, pois estamos aqui para realizar esta  palavra de  Jesus: amai-vos uns aos outros, como eu vos amei. A fraternidade, que não é a amizade dos sentimentos, nem simpatias, é uma decisão do nosso coração”, disse o arcebispo.

Segundo Dom Jacinto, a fraternidade supera o egoísmo e debela o individualismo das pessoas. “O individualismo é um círculo estreito ao nosso redor. Cremos na fraternidade que é capaz de derrubar muros. Por isso estamos aqui. O fato de estarmos aqui no inicio dessa manhã de domingo pela 23ª vez ostentando o nosso lema: diferenças, nós respeitamos, significa de fato a nossa crença e convicção de que fraternidade se faz com a vida e gestos de partilhas”, disse à multidão.

Antes de liberar os fiéis para a caminhada, mais um recado do arcebispo: não desanimem. “Não desanimem se presenciar sinais contrários, saques aos direitos das pessoas, a globalização da indiferença. Nós rompemos esse cerco proclamando a vitória da fraternidade. Hoje é domingo, dia da ressurreição, onde Jesus venceu o pecado e a morte e nós queremos vencer afirmando: diferenças, nós respeitamos”, afirmou.

A homilia de Dom Jacinto parece que foi feita para a secretária escolar Maria da Cruz, de 32 anos. O desanimo é uma palavra que não está em seu vocabulário. Vítima de preconceito quase que diariamente, ela participou pela primeira vez da Caminhada da Fraternidade.

“Eu achei muito importante o tema. Muitas vezes eu já fui vítima de preconceito. É um momento importante. Vivo sofrendo preconceito por onde eu vou, mas consegui terminar no ano passado o meu curso de secretária escolar”, afirmou, revelando que pediu a Deus naquele momento por sua saúde.

O amor como única religião

Se a palavra é respeito, nada melhor do que os umbandistas para falar disso. As religiões afro-brasileiras são as principais vítimas da intolerância religiosa, que assustadoramente cresce mundo a fora.

“É uma discussão muito válida. Não importa a religião, temos que respeitar o que eu ou você seguiu. O que importa é o respeito. Quando Deus veio ao mundo, ele não disse sobre religião A, B ou C, ele apenas deixou o amor como única religião que o mundo tem. Respeitem nossas religiões. Não descriminamos nenhuma religião, então que nos respeitem e que se coloquem em nosso lugar”, declarou a Lucinete, mas que também pode ser chamada de Ekedy Ty Oxalá.

Intolerância-religiosa
Foto: site Cidade Verde

E lá foram elas abrindo a caminhada com suas vestes brancas e torços (pano de cabeça), além das inúmeras guias em volta do pescoço. “Estamos aqui de peito aberto, somos iguais perante a Deus”, fez questão de lembrar Ekedy Ty Oxalá.

Quem não perde uma Caminhada da Fraternidade é a universitária Larissa Costa. Cadeirante desde os 2 anos de idade após a retirada de um cisto da coluna, o tema relacionado às diferenças não poderia ter escolha melhor. “Pra mim que sou cadeirante, é um tema importante para se discutir. O preconceito é grande. São poucas as pessoas que respeitam”, disse.

Apesar dos obstáculos que encontra pelo caminho diariamente, Larissa segue uma vida normal. Sai de casa por volta das 6 da manhã e só retorna no fim do dia. “Eu faço faculdade pela manhã e a tarde fisioterapia. É difícil você estar numa cadeira de rodas, não é fácil. Mas eu tenho uma vida normal. A pessoa tem que ter consciência de que as pessoas precisam ser respeitadas”, destaca.

No meio da multidão bandeiras coloridas chamam atenção de quem passa. Lá estava um grupo pequeno de jovens que só queriam uma coisa: ser reconhecidos pela sociedade.

“Pra mim é uma coisa fantástica ver a igreja discutindo isso, pois a gente (gays) tem que ser reconhecidos em todos os meios sociais. A igreja está de parabéns em tocar no assunto. Estamos aqui apoiando a caminhada e reivindicando nosso espaço”, disse João de Deus.

Quem mora em Teresina já deve ter cruzado com ela em algum momento. Hoje, os encontros aconteceram na avenida Frei Serafim, onde a pequena Laura Marques mandou seu recado: olhem pelos anões.

“Esse tema veio em boa hora. As pessoas que são diferentes, os outros têm muita resistência em relação a eles. No meu caso, os anões não tem acessibilidade. Existe o acesso para o cadeirante, cego, surdo, para o anão não tem. Sem falar nas outras raças como os homossexuais. Esse tema foi excelente e, principalmente, quando vem do lado da igreja”, afirmou.

Com 55 anos de idade bem vividos, ela relembra as inúmeras entrevistas que já deu ao longo da vida, sempre cobrando melhorias para os anões. “A coisa tem que andar dessa forma. Se não fizer assim, não provoca e não chama atenção das pessoas. Eu tenho 55 anos, mas desde o começo que eu bato nessa questão da acessibilidade: para o anão não tem nada. Isso é em nível de Brasil. Como um ser humano vai viver se ele não tem o básico, que é o acesso. Por isso que estou aqui”, ressaltou.

O povo não é excludente

Padre Tony Batista, vigário geral de Teresina e idealizador da Caminhada da Fraternidade, saiu em defesa da sociedade em geral. Fez questão de destacar que o povo em si não é intolerante e nem excludente.

“Alguns da sociedade é que são diferentes, que são intolerantes. Olha a resposta do povo. Quando o povo é solicitado, responde. Nós acreditamos que o Brasil tem jeito. O país está precisando de lideranças, de homens e mulheres capazes de levar esperança para o nosso povo”, disse, lembrando que ninguém é inimigo de ninguém por causa de escolhas.

“O que tem de igrejas evangélicas, terreiros de umbanda, pai de santo e mães de santo participando da caminhada. Eles estão aqui porque não são inferiores. São nossos irmãos. Você não é meu inimigo porque eu sou branco e você preto. Você não é meu inimigo pela sua orientação sexual, porque tem partido diferente. Somos filhos do mesmo pai, acontece que a nossa sociedade é burguesa, inconsequentemente. Essa burguesia exclui, pisa e temos que acabar com isso”, desabafou.

Para Tony Batista, as mulheres, negros e homossexuais são os que mais sofreram ao longo da história com a intolerância. “Ainda hoje sofrem. Nós temos essa carinha de santo, mas nós somos excludentes”, finalizou.

A importância do recado

Com o crescimento da intolerância, seja nas redes sociais ou no convívio cara a cara, o recado passado neste domingo pelo teresinense serve de exemplo e de alerta. As estatísticas comprovam como os casos de intolerância têm se manifestado na sociedade das mais diversas maneiras.

Intolerância religiosa – O Brasil teve 697 denúncias de intolerância religiosa entre 2011 e 2015, segundo dados da Secretaria Especial de Direitos Humanos. O principal alvo são as religiões afro-brasileiras. (Fonte: ONU)

Homofobia – 50% dos assassinatos de transexuais e travestis registrados em todo o mundo aconteceram no Brasil. (Fonte: Mobilizadores.org)

Racismo – Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em uma década (2006 a 2016) o Piauí registrou um aumento de 54,7% na taxa de homicídios contra negros. Já a taxa de homicídios contra não negros foi de apenas de 3,2% na mesma década.

Mulheres – Os dados do  Atlas da Violência 2018 mostram um aumento na taxa de homicídios contra as mulheres entre 2006 e 2016, chegando a 56,3% no Piauí. Só em 2016 foram 50 assassinatos, sendo que o pico da década foi registrado em 2015 com 67 mulheres mortas.

Internet – Segundo dados da ONG Safernet, entre 2010 e 2013, aumentou 203% o número de páginas (URLs) denunciadas à ONG por divulgar conteúdos neonazistas, xenófobos, homofóbicos, de intolerância racial ou religiosa, ou por fazer apologia e incitação a crimes contra a vida. Em 2010, os internautas identificaram e denunciaram 6.990 destas páginas. Em 2013, foram 21.205, das quais 11.004 estavam no Facebook,  a rede social mais usada pelos brasileiros. (Fonte: Mobilizadores.org).

Teve novidade este ano

O tradicional encerramento da Caminhada este ano não aconteceu na avenida Nossa Senhora de Fátima, como era de costume. A festa para comemorar mais um ano de evento foi realizada no estacionamento da Ponte Estaiada.

Os kits para a Caminhada foram vendidos em todas as paróquias da Arquidiocese de Teresina ao valor de R$ 25 e são compostos por camiseta, boné e mochila. Todo o valor arrecadado será revertido para projetos da Ação Social Arquidiocesana (Asa).

Quem caminha, ajuda ao próximo

Os recursos da Caminha da Fraternidade ajudam a manter diversas instituições que atuam no acolhimento de pessoas carentes em Teresina. Dentre elas estão o Lar da Fraternidade, Centro Maria Imaculada, Casa Pastoral do Idoso e o Lar de Misericórdia. Este último tem uma missão ainda mais especial: atende pessoas que moram em outras cidades, mas fazem tratamento contra o câncer em Teresina. São pacientes que não possuem um familiar na capital e não têm como se manter.

O Lar da Misericórdia foi criado através de um encontro de casais com cristo lá em 1992. Na época, contou com a ajuda de Dom Miguel Câmara, então bispo da Arquidiocese de Teresina.

“Dom Miguel era o bispo de Teresina na época e ele pediu esse gesto de ajudar as pessoas doentes que vinham do interior. Ficamos ajudando um e outro, mas estava meio perdido”, lembra a coordenadora do Lar, Ana Rosa Sena, ou simplesmente Aninha, como é mais conhecida.

Somente na 3ª edição da Caminhada da Fraternidade, o Lar da Misericórdia voltou-se apenas para o atendimento de pessoas com câncer. Em média, 40 pacientes passam pela instituição por dia.

“A gente recebe as pessoas que vem do São Marcos com encaminhamento social, onde traz toda uma documentação atestando que não tem condição de se manter em Teresina, que não tem família na capital. As vezes têm pessoas que moram até perto daqui como Altos, União, Barras, mas como a radioterapia, por exemplo, é feita todo dia, fica complicado vir e voltar diariamente”, explica Aninha.

O Lar conta com uma equipe de voluntários que chega a 90%. E o melhor: as pessoas ficam o tempo que precisam. Lá é garantida alimentação, apoio para o deslocamento e atendimento nos estabelecimentos de saúde; auxilio na manutenção dos tratamentos, acompanhamentos especializado e individualizado, através de profissionais voluntários nas áreas de Serviço Social, Psicologia, Fisioterapia, Enfermagem e Nutrição.

“A gente faz esse acolhimento e as pessoas ficam lá o tempo que precisa. Temos assistente social, nutricionista e hoje temos uma melhor assistência às pessoas. Nosso fluxo de pessoas é muito rotativo. Tem dia que nem vaga tem, pois há um ciclo de tratamento”, conta a coordenadora.

Ela revela que o local recebe muitos moradores de outros estados que buscam o sistema de saúde de Teresina. Os mais comuns são do Maranhão, Tocantins e Pará. “A procura era bem maior, mas ainda atendemos pessoas de vários estados do Brasil”, ressalta.

Gente como o agricultor Manoel Messias da Silva, de 68 anos. Natural de governador Luis Rocha, no Maranhão, ele está hospedado no Lar de Misericórdia há 10 dias acompanhando a esposa, que luta contra um câncer de mama há 7 anos. Ele ficou sabendo do Lar por causa das assistentes sociais do Hospital São Marcos.

“Estou numa casa de Deus. Sofri muito, mas cheguei. Eu estava na rua e sem comer, aí a assistente social me botou pra cá. Eu não conhecia. Aqui é uma maravilha”, conta.

Fonte: Cidade Verde

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