Pesquisadora investiga construção do racismo em jornais do século 19

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Imagem: Reprodução / Arquivo Público do Estado de São Paulo

À luz da análise do discurso, linguista examinou anúncios de escravos e textos pró-abolição. Com isso, ela notou que a construção da nossa linguagem foi racista e perdura até hoje

Nos anúncios de escravos do jornal Correio Paulistano, que circularam nas edições de 1874, a massiva presença de termos que descreviam o escravizado com riqueza de detalhes, visando à persuasão comercial, demonstra, entre outras coisas, que o negro era considerado uma “peça”, ou um “bem que se move”, assim como os animais.

Por outro lado, qualificações presentes em textos opinativos veiculados pelo jornal abolicionista  A Redempção – publicados nos primeiros meses de 1887 –, sob a máscara de um discurso de liberdade, respaldam a preocupação em manter o negro à disposição de seus senhores, para que se garantissem os meios de produção, ao mesmo tempo que o definem como “um ser inerte e inferior”.

Essas são algumas das conclusões da tese de doutorado A construção descritiva do racismo no século XIX: um estudo dos jornais Correio Paulistano e A Redempção, defendida no primeiro semestre deste ano por Mírian Lúcia Brandão Mendes, no Programa de Pós-graduação em Estudos Linguísticos (Poslin) da Faculdade de Letras (Fale) da UFMG. O assunto é tema de matéria publicada na edição 2.032 do Boletim UFMG.

“Na estruturação dos discursos racistas e antirracistas, os componentes descritivos atuam como elementos centrais. Esse fato se dá porque, ao ‘nomear’, ‘localizar-situar’ e ‘qualificar’, estabelece-se uma linha de argumentos para fundamentar uma ideologia”, explica Mírian Brandão, referindo-se a aspectos da Análise do Discurso (AD) que nortearam sua análise.

A coleta de dados foi feita no site do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Foram selecionadas dez publicações do Correio Paulistano e outras dez do jornal A Redempção.

Fugio do abaixo assignado, um mulato por nome Lucas com idade de 28 annos creoulo da Faxina, sapateiro, estatura regular, corpolento, pés e mãos chatos, pernas grossas, tem falta de um dente na frente, e também um signal no beiço, tem signaes de castigo tanto nas costas como nas nadegas (…)

(Jornal Correio Paulistano, 09 de janeiro de 1874)

Temática persistente
De acordo com a autora, o interesse pela pesquisa sobre o racismo nasceu ainda na graduação em Língua Portuguesa e Literaturas, quando era leitora assídua da revista Raça Brasil – publicação que aborda a história e a cultura dos negros brasileiros.

“Durante minha pesquisa de mestrado, em que analisei os enunciados dos artigos dessa revista, percebi que as sequências discursivas argumentativas eram caracterizadas pelas repetições que sempre traziam à tona os efeitos de memória do passado escravista. O racismo é uma categoria histórica e, por isso mesmo, dinâmica. A temática é antiga, mas persiste e permeia as relações cotidianas”, observa Mírian Brandão, que é professora universitária.

Segundo a pesquisadora, tanto no âmbito da UFMG como no de outras universidades, são numerosos os estudos  sobre racismo, o que indica a existência de um movimento de engajamento que visa à mudança de paradigma no cenário social. “O pesquisador que evidencia o racismo em um trabalho de mestrado ou doutorado, além de dialogar com esse movimento de militância, colabora para que, progressivamente, sejam abertos espaços para discutir a desnaturalização do racismo na nossa sociedade”, observa.

Em sua tese, a autora propõe uma via possível para refletir e trabalhar o racismo no ambiente escolar, por meio das práticas pedagógicas orientadas pelos conceitos de “letramento racial crítico” e “teoria racial crítica”. Mírian Brandão acredita que essas ferramentas podem fortalecer a construção de uma identidade positiva do negro. “Espero que minhas reflexões sejam fontes de debates sobre as persistências de um racismo silencioso”, considera.

 

Fonte: UFMG

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