Diretora da Anistia Internacional afirma que precisamos desnaturalizar o racismo

Jurema Werneck é carioca, nasceu na favela e estudou em instituições públicas até a universidade. Mulher, negra, pobre. Soube o que era racismo ao seis anos, quando, na escola, um menino da mesma idade não quis encostar nela para dançar. Fala firme à frente da Anistia Internacional, uma das principais entidades de luta para garantia dos direitos humanos. Jurema aprendeu a falar, mesmo diante da timidez. Graças às mulheres da sua vida, que mostraram a importância do passado e lhe deram a chance de ter um futuro. Na verdade, ela atribui à comunidade a possibilidade de estudar, se formar e ser voz para quem precisa. Acreditaram nela e isso a fez seguir sempre.

Num cenário diferente do que viveu na infância e do qual avó e mãe vinham, Jurema diz que é preciso desnaturalizar o racismo, fruto de um patriarcado difícil de sumir. E ressalta a importância das instituições públicas para esse passo ser dado em direção à igualdade. Mais ainda: destaca que precisamos ajudar quem elegemos em 2018 em resposta ao preconceito que tirou a vida da deputada carioca Marielle Franco. Quando questionada sobre uma onda conservadora que corrobora com a ideia de que direitos humanos não são direitos de todos os humanos, Jurema não eleva o tom. Atribui a realidade à falta de informação.

Reproduzimos aqui a entrevista do jornal O Povo com a médica Jurema Werneck.

O POVO – Sua trajetória nos estudos, desde sempre, teve o importante apoio de seus pais e da comunidade. Como isso acontecia na prática?

Jurema Werneck – Nós éramos muito pobres, então nem sempre era possível a gente ter tudo que era necessário para a vida cotidiana. Mas havia na minha família essa decisão, essa aposta. Que a gente precisava progredir na educação porque era uma saída para a experiência de pobreza que a família e todo mundo que a gente convivia tinha.Recebíamos doações das pessoas, de comida e de roupa, mas também tínhamos muito incentivo, reconhecimento e muitos parabéns. O orgulho das pessoas em nós estarmos progredindo, em estarmos conseguindo nos manter nos estudos.

OP – E mesmo com tanta pobreza, porque você acha que havia essa consciência dos seus pais e esse orgulho da comunidade?

Jurema – Eu acho que eles aprenderam a ter essa consciência. Até onde eu sei, essa é uma decisão, uma aposta da população negra já da primeira metade do século XX. Viver no Brasil no pós-abolição foi muito difícil e a população negra sempre viveu nas piores condições, de acesso a emprego e às condições mínimas adequadas à sociedade. Meus pais viveram isso do outro lado, no sentido de que eles tinham um grande ímpeto e uma grande vontade de prosseguir nos estudos e experimentar todo tipo de barreira. Minha mãe morreu antes de poder seguir os estudos, mas meu pai, já com a gente adulto, continuou a estudar e foi fazer o ensino médio. Eles sentiam essa falta e apontavam isso, porque eram pessoas muito inteligentes, que liam muito, bastante articuladas no pensamento, mas conheceram as barreiras e não conseguiram prosseguir os estudos. A aposta era dos meus pais, das minhas avós, dos meus tios e tias, da grande família de agregados que a gente tinha, de alguns vizinhos, de colegas de trabalho do meu pai. O que eles faziam era tentar ajudar a gente para que continuássemos estudando. E eu acho que eles se orgulhavam de ver que o investimento deles estava funcionando. Era difícil para todo mundo. A vida era uma peneira para quem não tinha condições mínimas. E a gente foi passando por essa peneira e conseguindo continuar.

OP – Qual o peso da descendência e da ancestralidade na sua vida?

Jurema – Minha família era muito grande. Reunida, tinha diferentes gerações em torno da figura da minha bisavó, que viveu até os 101 anos. Ao longo da vida dela conosco, falava de quem veio antes e de como era a vida, a história. Que havia sido muito mais difícil do que estava sendo, apesar das dificuldades que a gente enfrentava. E ela também contava a experiência de resistência dessa família. Por outro lado, a gente se reunia em torno da minha mãe. Que era neta dessa mulher e também era uma líder religiosa. E trazia esse tipo de família de agregados. Não era só por sangue. Tinha aqueles parentes biológicos, tinha outros adotados, porque minha avó adotou muita gente. E também tinha os parentes pela família religiosa.Isso faz parte do que eu sou. Não sou uma pessoa religiosa e não penso particularmente em uma outra dimensão que não essa. Essa experiência me constituiu. Aprender que eu sou ligada a um coletivo que vem antes de mim e que implica dizer que eu sou ligada a um coletivo que virá depois, isso fala para mim no sentido dessa dimensão que você chama de ancestralidade.

OP – Você foi uma menina tímida, calada. Quando ganhou voz e qual a sensação de conseguir se expressar e buscar por direitos?

Jurema – Eu era muito silenciosa, mas acho que isso tinha a ver com a experiência fora de casa, no mundo, na escola. Eu tinha um déficit de atenção, então era difícil viver na escola. Um ambiente que não é exatamente o melhor lugar para uma menina negra. Mas eu também vivi nessa família, com a liderança dessa mulheres, a voz dessas mulheres, que era forte e respeitada.Eu comecei a participar de algumas iniciativas estudantis, desde os oito anos de idade, que é uma das memórias mais antigas que eu tenho. Mas principalmente foi no movimento social. No estudantil primeiro e depois no movimento de mulheres negras em que eu fui exercitando essa possibilidade de falar. E também, claro, profissionalmente. Sou médica e uma dos aspectos do exercício da medicina é o poder de falar. E na maior parte das vezes fui aprendendo com outras crianças, outros homens e mulheres. Principalmente mulheres negras, que foram permitindo e me ajudando a ocupar esse lugar, de ter uma voz e pode falar.

OP – Ter voz e poder falar transforma em quê a vida das pessoas?

Jurema – É um modo de poder estar na sociedade do ponto de vista mais completo. Muitas vozes são silenciadas e muitas vozes são desautorizadas. Ainda que o direito de participar, de emitir a própria opinião, e poder participar das conversas, dos discursos e dos diálogos públicos exista. Esse direito nem sempre é exercido por diferentes pessoas e grupos. Para você poder superar essa barreira e emitir sua voz, primeiro é um exercício do direito. A gente ter uma voz pública significa que teve todo um esforço de uma comunidade que espera que você a represente quando fala publicamente.Não apenas representar no sentido de estar presente na arena pública, mas de trazer as mensagens, as propostas e visões que permitam que essas pessoas que estão silenciadas possam, no mais curto espaço de tempo possível, também ter acesso aos seus direitos e à sua própria voz.

OP – Falando sobre racismo e sobre ser negro, você conta que uma das primeiras experiências de discriminação que teve foi aos 6 anos, quando um colega da escola não quis dançar com você…

Jurema – Ele não queria encostar a mão em mim. Numa escola pública e nós tínhamos 6 anos de idade. Estava começando na escola e ele também. Foi o primeiro encontro, a primeira lição sobre o racismo, sobre como ele funciona. Não apenas deformando a mentalidade de uma criança de 6 anos, que foi o caso desse meu colega, mas como as estruturas permitem que isso aconteça. Ele fez isso numa escola, as professoras estavam lá e eu me lembro que falei com uma delas e a diretora. No máximo deram uma bronca nele e ele foi obrigado a dançar comigo. Mas não se resolveu o problema né? Ou seja, as instituições acabam permitindo que isso aconteça. Porque ele aprendeu o racismo fora da escola. A sociedade já faz isso, permite que uma criança de 6 anos aprenda o que é racismo. E um racismo violento como esse. Mas a escola acaba dando espaço, perde a oportunidade de transformar esse menino em um homem justo e decente.

OP – Em muitas escolas, principalmente as particulares, você conta nos dedos o número de crianças negras. Como podemos fazer para que o universo da raça seja algo mais natural?

Jurema – Para usar o termo que você usou, para esse universo da raça… para isso ser mais natural é preciso desnaturalizar o racismo. Uma escola que tem poucas crianças negras em um país como o nosso, onde a presença negra em todos os estados é grande. Um ambiente que não tem negros é um ambiente segregado. E a segregação racial é uma expressão do racismo. É preciso desnaturalizar e tomar medidas ativas. Isso não vai acontecer espontaneamente. É preciso inserir as pessoas, dar condições de presença e permanência, ou seja, trabalhar o anti-racismo, ensinar o anti-racismo e garantir que ele seja vivenciado por todos. É preciso fortalecer as pessoas negras, não permitir que elas sejam vitimizadas no ambiente que é de direito delas. É preciso tomar atitude. É preciso que as instituições públicas passem uma mensagem de desnaturalização do racismo, de respeito à população negra. E o fortalecimento dessa pessoas. E que produzam a igualdade. Não tem jeito, só fazendo.

OP – Existe a questão do autorreconhecimento como negro. Muitas pessoas não se consideram negras. O que isso significa?

Jurema – Tem que se colocar no lugar dessas pessoas. Imagina você ser uma pessoa negra numa comunidade racista onde os discursos racistas dizem que você, negro, é nada. Você vive em uma sociedade e, por ser negro, está exposto a muito mais violências, muito mais exclusões, à pobreza? então tem um movimento quase que de autoproteção, não é? Uma tentativa de se desidentificar e talvez se proteger de tudo isso que o racismo produz.Mas na verdade não adianta. Porque o racismo sabe muito bem, faz com que as políticas racistas saibam muito bem quem é o negro, e essa pessoa acaba não escapando. É claro que você pode pegar a conceituação em que se considera negros e brancos, mas claros e escuros. Porque a forma como o racismo se estrutura permite uma certa fluidez da raça ou do ser negro. Isso significa que, quanto mais claro, mais você vai ser convidado a se desidentificar. Uma outra pessoa chamava isso de ideologia à traição, mas na verdade é um convite. O racismo, do jeito que se organiza no Brasil, oferece um pouco, um pequeno espaço para aqueles mais claros.

OP – E então entramos nas definições de ele é moreno ou preto.

Jurema – Exatamente. Esse é um fenômeno que já foi registrado até por Gilberto Freyre em um dos volumes de ‘Sobrados e Mucambos”, no capítulo chamado “a ascensão do bacharel e do mulato’. Em que ele fala exatamente dessa melancolia, se não me engano o termo que ele usa é esse, melancolia. Em que esses mais claros acabam se afastando do polo negro para tentar se aproximar do mais branco, como forma de proteção ou de possibilidade de trânsito. Essa pessoa também não está a salvo do racismo.

OP – E o que significa ser uma mulher negra?

Jurema – Mulher negra é só um conceito, um construto. Na vida real são muitas e múltiplas. Com diferentes características. Mas ser mulher negra é experimentar de forma aguda os efeitos do racismo patriarcal. A linha que divide a sociedade no Brasil é a linha de cor. Não é a linha de gênero, mas também a linha de gênero. E os grupos por cor acabam se dividindo mais e se violentando mais de acordo com gênero e outras características. Ser uma mulher negra numa sociedade que é guiada pelo racismo patriarcal, nós vamos viver imensos desafios, de toda sorte, inclusive da própria sobrevivência.

OP – Esses desafios mudaram ao longo do tempo?

Jurema – Sim e não. Não porque o racismo patriarcal continua aí, com os mesmos desafios. O que é diferente são as arenas de disputa e as formas de confrontação. Já temos mais mulheres ocupando a esfera pública, mais mulheres negras, mais debate público do anti-racismo patriarcal. Nós temos, por exemplo, mulheres em ambientes de ações afirmativas, que estão dando resultado. Então a forma de disputa e luta se diferencia um pouco, mas é só na forma. Porque o problema original ainda está aí e está produzindo vítimas.

OP – Nas Eleições deste ano, nosso legislativo teve um número considerável de mulheres negras eleitas, comparado a outros processos eleitorais. O que isso representa e como pode reverberar?

Jurema – Isso traduz diferentes fenômenos e eu vou pontuar só dois: nesse momento eleitoral, a população reivindicava o novo. Novas soluções, novas possibilidades. Não estou dizendo se isso é bom ou ruim, mas isso é um vetor muito forte. O outro fenômeno é que a maior presença das mulheres negras é a reverberação da luta que já estava aí. A gente já estava preparado. Produzimos, ao longo das últimas décadas, quadros importantes para ocupar diferentes situações. Tivemos muito mais candidatas do que eleitas. No entanto, tivemos muitas eleitas, comparando a nossa história. Quero lembrar que a grande maioria dessas mulheres eleitas é de ativistas que se destacaram após a marcha de mulheres negras de 2015. E conferiu um outro ambiente sobre resistência. Uma organização descentralizada em praticamente todos os estados. Permitiu criar uma mobilização, uma articulação, uma consciência, que acabou reverberando para dentro dos partidos políticos e a partir daí teve resultado no processo eleitoral.Mas é preciso lembrar também que os partidos responderam muito mal. As mulheres foram eleitas por próprios méritos, não por méritos dos partidos. Porque o investimento que eles fizeram não estiveram à altura.

OP – A morte de Marielle Franco impactou nessa conquista de 2015?

Jurema – É preciso lembrar também uma tragédia que tornou mais urgente essa participação eleitoral. Vem desafiar profundamente em todas as dimensões da nossa organização, desde internamente, pessoalmente e simbolicamente, até das estratégias políticas. Marielle também é uma mulher negra que foi brilhante e engajada, também fruto dessa luta que moveu o país todo. E foi arrancada de nós, brutalmente assassinada. Faz sete meses (na época da entrevista, hoje, já se passaram 9 meses), sem nenhuma solução até agora. Se as autoridades mantêm silêncio em relação a esse assassinato, as mulheres negras responderam, deram uma resposta. O que aconteceu nas eleições é uma resposta.

OP – Como essa resposta se concretiza no legislativo, nas proposições, nos diálogos e nas políticas públicas?

Jurema – Eu acho que precisa acontecer junto com a gente. Precisamos garantir a essas parlamentares eleitas em diferentes parlamentos, seja no Estado ou em nível federal, um espaço de cuidado, de proteção e de diálogo. Nós temos que continuar sendo a comunidade delas, aquelas que cuidam, que dialogam e que ajudam a apontar os caminhos. É preciso que continuemos junto a elas porque não é fácil. A experiência no Congresso não é fácil.

OP – Em relação ao seu trabalho da Anistia Internacional, que atua na garantia de direitos humanos. Diante de uma onda mundial de conservadorismo, que inclui a concepção de que direitos humanos são pauta política de esquerda, como manter a autonomia da entidade?

Jurema – A Anistia Internacional é um movimento de milhões de pessoas que estão em 150 países, há 56 anos, defendendo as pessoas. Defendemos as pessoas e os lugares onde os direitos delas estão sendo violados. Defendemos melhorias na sociedade. Um movimento de sete milhões de pessoas, que não recebe dinheiro de empresas. Somos autônomos. Lutar pelos direitos humanos é o que a gente faz, não importa o país, o regime, a condição.O Brasil, não é de hoje, já faz muito tempo, enfrenta muitos desafios para garantir os direitos humanos da população. Nós temos altas taxas de homicídios, especialmente de jovens negros. Temos altas taxas de violência e assassinato de pessoas que lutam por terra e recursos naturais, as pessoas que defendem sua comunidade, principalmente nas áreas rurais e na região amazônica. O Brasil já é assim há muito tempo, então a nossa visão como Anistia Internacional no País é ajudar pessoas a lutar as lutas necessárias, a se engajar nas lutas que precisam ser feitas para que o País melhore. Não é possível seguir no século XXI com padrões de civilização tão violentos e desrespeitosos.

OP – Um dos papéis da Anistia seria exatamente mostrar que a morte da juventude negra vale tanto quanto a morte da juventude branca?

Jurema – Mostrar que cada vida importa, não faz diferença quem é essa pessoa. Nós da Anistia Internacional defenderemos o jovem negro, o jovem branco, o agente do Estado, o ativista da sociedade civil. Estamos aqui para defender todos aqueles que têm seus direitos violados. Essa é a nossa responsabilidade e acreditamos que cada vez mais pessoas estão interessadas a ser juntar para fazer isso.

OP – E sobre a concepção de que direitos humanos é uma pauta política de esquerda?

Jurema – O desafio que está colocado, primeiro, é mostrar para a sociedade brasileira que direitos humanos são patrimônios de todo mundo que é humano. Só um ser humano pode cuidar de outro ser humano no sentido de garantir seus direitos. Direito a viver, a morar, a ter saúde, a escola, a ter educação, e de ter o mínimo necessário para viver com dignidade. É preciso que a gente propague essa mensagem para, na verdade, retirar do ambiente essa falta de informação.Uma desinformação que não é uma ignorância, mas que existe por conta da experiência antiga de violação de direitos no Brasil. As pessoas experimentam pouco o que é viver com dignidade, tendo seus direitos respeitados. Então não sabem como são os direitos humanos. É preciso fazer chegar a cada pessoa que ela pode viver. Toda a comunidade melhora, o estado melhora, o País melhora.

OP – Você falou na proteção dos agentes estatais e uma das bandeiras da Anistia é contra abusos cometidos pelas forças policiais. No Ceará, em 2015, tivemos uma chacina protagonizada por policiais. Onze pessoas mortas e sete feridas…

Jurema – Infelizmente, o estado brasileiro não está tomando as providências e utilizando adequadamente as ferramentas que tem. Vemos uma alta incidência de homicídios cometidos pela Polícia em serviço. É preciso dizer que boa parte deles pode ser evitada e as instituições não estão fazendo o que devem para garantir que se evite. Não queremos uma Polícia que mata e não queremos uma Polícia que morre. Nós queremos uma Polícia que está ao lado da sociedade para produzir segurança. E é importante que as polícias também aprendam a lidar com os direitos humanos, aprendam a enfrentar o racismo e o preconceito contra pobres. Há muitas medidas que podem ser tomadas para impedir que a Polícia seja essa Polícia que tanto mata. Mas uma vez que eles assassinem, há também mecanismos que precisam ser utilizados para responsabilização.

Fonte: O Povo

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