Mortes por covid-19 tem classe social e raça e isso é culpa do racismo estrutural

Os últimos dados têm mostrado quem são as pessoas que mais morrem por covid-19: negras e pobres. 

Isso se dá porque a posição social do brasileiro negro dificulta o acesso aos cuidados mais adequados no combate ao coronavírus. Pessoas negras são mais colocadas no mercado de trabalho informal, tendo muito mais dificuldade de procurar o serviço de saúde no tempo adequado, já chegando em condições piores. Além disso, são maioria nas periferias onde possui hospitais mais cheios tendo maior tempo de espera para a transferência para uma vaga de UTI. Nestes mesmos hospitais ou postos de saúde periféricos, há falta de material, como constatamos aqui em Brasília, ao levar uma pessoa para fazer teste na UBS de Samambaia (periferia do DF) e, após ficar um longo tempo esperando, receber a resposta que não tem teste de covid-19. Um outro fator é o transporte público. São estas as pessoas que mais pegam transporte público e este é um dos grandes vetores de transmissão do vírus.

Agora, porque pessoas negras são mais suscetíveis ao covid-19, e pior, são os que mais morrer?

Simples. Descrito tudo acima e sabendo que a maioria na periferia e nas classes menos favorecidas são pessoas negras, a resposta é: racismo.

A população negra é a mais afetada pelo covid-19 por causa do racismo estrutural que os deixa nas camadas mais pobres da sociedade e por isso estão nas periferias, com acesso escasso à saúde de qualidade, em subempregos, pegando transporte público, em empregos subalternos que não puderam (ou não quiseram) parar colocando essas pessoas ainda mais em risco. A situação socioeconômica da população negra os fazem ser as maiores vítimas da pandemia e isso é culpa do racismo estrutural. Também é provável que seja por isso que as autoridades políticas não se importam com a pandemia, porque ela mata mais preto e pobre e isso também é resultado do racismo estrutural.

Racismo estrutural

Racismo estrutural é o termo usado para reforçar o fato de que há sociedades estruturadas com base na discriminação que privilegia algumas raças em detrimento das outras. No Brasil, nos outros países americanos e nos europeus, essa distinção favorece os brancos e desfavorece negros e indígenas.

Quando a escravidão foi abolida, em 1888, nenhum direito foi garantido aos negros, nenhum dano foi reparado e nenhuma ação para dar subsídio para se construir naquela sociedade foi feita. Sem acesso à terra e a qualquer tipo de indenização ou reparo por tanto tempo de trabalho forçado, muitos permaneciam nas fazendas em que trabalhavam ou tinham como destino o trabalho pesado e informal. As condições subumanas não se extinguiram e essa trajetória histórica fez com que negros sejam, até hoje, maioria nas periferias, na miséria, no subemprego, nos trabalhos informais.

Silvio Luiz de Almeida, filósofo, jurista e professor universitário defende que a forma como a sociedade é constituída reproduz parâmetros de discriminação racial, no campo da política e da economia, sendo o racismo estrutural naturalizado como parte integrante do meio social. O professor também destaca que o racismo é constituído por ações conscientes e inconscientes, e que nós, enquanto sociedade, acabamos naturalizando a violência contra pessoas negras, e que a morte de negros não nos choca como deveria.

Dito isso, é possível afirmar que a culpa de negros serem maioria pobre é da sociedade branca brasileira que escravizou e pautou toda a construção social do Brasil numa estrutura racista e discriminatório, onde até leis eram feitas para discriminar.

Portanto, se hoje a pandemia mata mais a população negra, a culpa é do Estado que permitiu (e corroborou) que o Brasil fosse construído numa base racista. Por isso o Estado quem deveria interferir e subsidiar a população mais afetada, mas tudo o que ele faz é se silenciar e cruzar os braços. Porque o Estado ainda é racista e não se importa com a morte de pretos.

Os dados que comprovam o racismo estrutural

Resultados de um estudo do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde, grupo da PUC-Rio, confirmam que pretos e pardos morreram por covid-19 mais do que brancos no Brasil. O grupo analisou a variação da taxa de letalidade da doença no Brasil de acordo com variáveis demográficas e socioeconômicas da população. Cerca de 30 mil casos de notificações de covid-19 até 18 de maio disponibilizados pelo Ministério da Saúde foram levados em conta.

Considerando esses casos, quase 55% de pretos e pardos morreram, enquanto, entre pessoas brancas, esse valor ficou em 38%. A porcentagem foi maior entre pessoas negras do que entre brancas em todas as faixas etárias e também comparando todos os níveis de escolaridade.

O estudo também concluiu que, quanto maior a escolaridade, menor a letalidade da covid-19 nos pacientes. Pessoas sem escolaridade tiveram taxas três vezes superiores (71,3%) às pessoas com nível superior (22,5%).

Cruzando escolaridade com raça, então, a coisa piora: pretos e pardos sem escolaridade tiveram 80,35% de taxas de morte, contra 19,65% dos brancos com nível superior.

Se a elite branca fosse mais afetada pela pandemia, o Estado ainda estaria em silêncio e inerte?

Questionamento extra

Um fato a considerar é a omissão do governo do Distrito Federal na falta de material para os teste de covid-19. O governador não admite que falta material, mas vá à UBS e tente fazer um teste. Por que a rede pública de saúde, a mesma que atende mais a população periférica e negra, não possui testes? Por que o governador mente ao dizer que não faltam testes? Porque o mesmo governador atua para abertura de tudo quando o número de casos aumenta exponencialmente?

Com a falta de testas na rede pública, o número de infectados e mortes pode ser muito maior que o divulgado e podemos estar em mais risco do que pensamos e tudo isso por omissão e irresponsabilidade do Governo do Distrito Federal.

Até quando vamos ser vítimas do Estado?

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