Religiões de matrizes africanas intensificam trabalhos sociais na pandemia

A pandemia tem deixado a população cada vez mais pobre. É só andar pelas ruas para ver o aumento de pessoas em situação de rua. E isso não é uma escolha, é justamente a falta dela. Segundo Mãe Cícera de Oxum, dirigente espiritual do Templo Espiritual Rosa Branca, terreiro de umbanda situado em Samambaia-DF,  “esse público que está nas ruas do Distrito Federal, muitas vezes, saem de outros estados e cidades do entorno onde não conseguem apoio social e alimentar então fazem essa migração para onde as pessoas os vejam com mais facilidade”. E assim ficam nas ruas dos grandes centros.

Segundo o IBGE, houve queda de 4,1% no Produto Interno Bruto (PIB) de 2020. Isso mostrou uma antiga ferida da sociedade brasileira: a desigualdade social entre ricos e pobres, que acabou agravada pela pandemia do coronavírus. Dados recentes do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), baseados em pesquisas do próprio IBGE, mostraram que 12,8% da nossa população ficou abaixo da linha de pobreza extrema, isto é, precisam sobreviver e sustentar a família com apenas R$ 246 por mês. 

Este contingente, ainda segundo a FGV, é equivalente a mais de 27 milhões de pessoas consideradas muito pobres, e fez o país superar a marca alcançada em 2011, quando esse total equivalia a 12,4%. Os economistas apontam que esse foi um efeito do fim do auxílio emergencial do governo federal, que durante o início da pandemia, pagou R$600,00 mensais a mais de 55 milhões de desempregados e trabalhadores de baixa renda. Assim, a população brasileira está cada vez mais pobre e os programas sociais cada vez mais reduzidos.

Com isso, muitos estão contando com a caridade daqueles que se preocupam com o próximo. As religiões de matrizes africanas que possuem em sua cultura a caridade alimentando o corpo e a alma, intensificaram suas ações nesse período de pandemia e estão abrindo seus corações e casas, cada vez mais, para ajudar quem precisa.

Em Valparaíso de Goiás, entorno do Distrito Federal, o Ilê Asè Ofá Wurà, liderado pelo Bàbálórìsà Felipe de Logunedé faz entregas de lanches para famílias em situação de vulnerabilidade na rodoviária do Plano Piloto e também na porta de hospitais. Com o início da pandemia observou que as famílias nas comunidades periféricas de Valparaíso de Goiás ficaram fortemente impactadas e a partir de então o Ogan Augusto Cesar (Cezinho), fundador do Bloco Afro Rum Black, firmou parceria com a CUFA – Central Única das Favelas -, onde foi convidado a ser Coordenador Regional da instituição no município.

“O Bloco Afro Rum Black existe desde 2017 e desenvolve atividades afro-brasileiras e africanas no bairro periférico Parque Marajó, ministrando aulas de percussão, dança afro-brasileira (samba de roda, dança de orixá, dança afro contemporânea), dança moçambicana diretamente de Maputo, composições afro poéticas e fotografia. Com o avanço da pandemia as oficinas supracitadas ficaram suspensas, porém, nos tornamos, assim como o Ilê Asè, corpo técnico da CUFA voltando o fortalecimento para ações humanitárias em prol da periferia”, afirmou Ogã Cezinha. 

O Ilè Asè Wurà forneceu mais de 200 lanches, além de lençóis e cobertores para pessoas em situação de rua em parceria firmada com hotéis. Além disso, foram doadas máscaras, álcool em gel, ovos, cestas básicas, chips telefônicos do Alô Social (contendo internet e ligações por 06 meses de gratuidade), Cartões Santander (02 parcelas de R$ 140,00) e sua próxima ação será com a entrega de 105 cartões da marca Ticket, doadas pelo Carrefour no valor de R$ 100,00.

Ilè Asè Wurà/Bloco Afro Rum Black/CUFA

O Templo Rosa Branca de mãe Cícera atende a comunidade local, de Samambaia, e tem atendido uma ocupação no cerrado em frente à água mineral na saída norte próximo ao noroeste e no viaduto da Ceilândia próximo ao metrô. Mas o terreiro de umbanda atende em qualquer lugar de Brasília onde existam pessoas com maior necessidade. Já foram entregues, aproximadamente, 450 marmitas em 4 ações e 70 cestas básicas, além de roupas e calçados. Para mãe Cícera o sentimento de ajudar é maravilhoso e, ao mesmo tempo, gera tristeza em ver como cresceu a miserabilidade no Brasil. “O sentimento de ajudar é bom, porém a sensação de abandono por parte das políticas públicas de integração social causa muita tristeza”, afirmou. Mãe Cícera considera que fornecer subsídio para subsistência das pessoas em situação de vulnerabilidade social nada mais é do que fornecer respeito e todos merecem ser respeitados. “Não sei se sou romântica  ou só mãe, amiga, mulher e outras funções a mais que não sei dizer, mas com sentimento de amor gostaria de que o ser humano fosse respeitado como merecem”, completou.

Mãe Lu de Xangô, mãe pequena do Palácio de Iemanjá, terreiro de umbanda Omoloko, localizado em Arniqueiras, lidera o grupo Soldados do Bem. O grupo foi iniciado por ela e seus irmãos de santo e agrega pessoas de diversos credos e ideologias. Para mãe Lu, as diferenças precisam ser respeitadas e a união promove respeito, amor e solidariedade. “Agregamos pessoas de vários grupos e crenças em prol de uma causa maior. Sempre nos respeitamos mutuamente, sabendo que existem diferenças ideológicas, religiosas, políticas, etc, mas  que o foco de todos do grupo é exercer a solidariedade e fazer o bem sem olhar a quem”, considerou. Mãe Lu  afirma que o engajamento dos jovens é enorme e fortifica imensamente o movimento podendo consolidá-lo por muitos anos. “Um fato de suma importância, não só nos ajudou, mas nos deu e continua dando forças para continuar. A adesão de jovens e adolescentes, abraçando a causa, muitas vezes passando o final de semana inteiro, pedindo, recolhendo e preparando com tanto amor e dedicação as doações e a ânsia deles em ajudar, nos faz acreditar que além do bem que fazemos a outras pessoas, estamos plantando aqui, sementes do bem, que estão germinando, dando bons frutos e que posteriormente eles é que estarão semeando essa ideia e dando continuidade ao projeto”, afirmou. Os Soldados do Bem atendem de 100 a 300 pessoas em situação de rua por ação, fazem também doações às comunidades carentes do entorno, vilarejos, acampamentos e ocupações, além de algumas famílias que se encontram em dificuldades.

Soldados do Bem

Com a União dos Soldados do Bem e o Templo Espiritual Rosa Branca, as ações que eram mensais passaram a ser quinzenais e às vezes semanais. Além disso, mais casas têm se disponibilizado a somar com o grupo. Porque o bem propaga o bem, e somando forças transformam o mundo. Não é à toa que o lema do grupo é “SOU PORQUE SOMOS E JUNTOS SOMAMOS”.

Soldados do Bem/Palácio de Iemanjá/Templo Espiritual Rosa Branca

Inspirada em sua mãe, mãe Leila,  Mestra Auaracyara da Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino no Distrito Federal – OICD-DF, criou a campanha Rede de Solidariedade. “Desde o início da pandemia em 2020, minha mãe Maria Elise Rivas, Mestra Yamaracye, Mestra-Raiz da Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino em SP, iniciou e incentivou seus filhos e filhas a iniciarem ações emergenciais de cestas básicas para as famílias em situação de vulnerabilidade”, contou. Assim, a mãe Leila seguiu seus passos e em Brasília já distribuiu 475 cestas básicas, mais de 5 toneladas de alimentos. Em 2021 já foram distribuídas 215 cestas básicas, aproximadamente 3,0 toneladas de alimentos. “Em maio de 2020, no segundo mês da campanha, fizemos a doação de 120 cestas básicas para creche, asilo, serviço de acolhimento de crianças e adolescentes e lideranças comunitárias dos seguintes bairros: Varjão, Itapoã, Park Way, Ceilândia, Vila Nova São Sebastião, Águas Lindas e Núcleo Rural Sobradinho. Os serviços de acolhimento, além das cestas básicas, receberam doações de jogos, brinquedos, DVDS de filmes, desenhos e musicais, para entretenimento durante a pandemia. Em parceria com a Rede de Famílias Varjão e Itapoã serão doadas 500 máscaras de tecido para casas de acolhimento de crianças e adolescentes do DF”, afirmou.

E essas são apenas algumas das casas de religiões de matrizes africanas que intensificaram seus trabalhos sociais, assistenciais e de caridade no Distrito Federal e entorno. A caridade é a base das matrizes africanas. Em tempos normais suas ações de auxílio a quem necessita já são amplas. Nesse tempo de crise aumentaram ainda mais. Quebraram barreiras de preconceitos, das violências sentidas por essas religiões e seguem ajudando a todas e todos sem distinção.

Isso é a religião de matriz africana.

Amor e caridade.

Para ajudar as casas:

Palácio de Iemanjá/Soldados do Bem: Pix 61985874211

Templo Espiritual Rosa Branca: Pix 61982837942

Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino no Distrito Federal – OICD-DF: 25.051.684/0001.81

Ilè Asè Wurà/Bloco Afro Rum Black: Pix: rumblack.producoes@gmail.com

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