o matriarcado nas religiões de matrizes africanas

Numa sociedade construída no patriarcado, as religiões judaico-cristãs colocam no homem a missão sacerdotal. No entanto, as religiões de matrizes africanas no Brasil seguem uma praxe diferente, sendo a mulher o grande modelo sacerdotal. Isso tem referência tanto política como religiosa numa cultura que desde o processo de escravização luta para se manter viva.

Contextualizo…

Na época da escravização no Brasil, mulheres negras colocadas para trabalhar dentro da casa grande conseguiam juntar dinheiro e comprar sua liberdade. Assim, saiam da escravização, encontravam lugar para morar, trabalhar e, quando outros escravizados conseguiam sua liberdade, essas mulheres abriam seus quintais, chamados de terreiros, para cuidar destas pessoas. Davam comida, local de banho, conhecedoras do poder das ervas, davam chás e banhos de ervas, benzimentos para a cura do corpo e da alma. Daí temos os terreiros de candomblé liderados por mulheres, as mães de santo, porque com todo cuidado que elas tinham por todos, eram consideradas mães daqueles escravizados órfãos retirados de suas mães pelo regime escravagista. Esse é o ato político de resistência da cultura e da vida do povo negro.

A referência religiosa se dá pelas tradições africanas de santificar a existência da mulher. Segundo mãe Baiana, Yalorixá do Ilè Axè Oyà Bagan, no Distrito Federal, a mulher das tradições de matrizes africanas são respeitadas e consideradas sagradas por gerar a vida. 

“A mulher tem voz ativa dentro da nossa tradição. O feminino na nossa tradição de matriz africana tem uma importância muito grande. Primeiro porque a mulher que trás a vida. Olha a confiança que o próprio Deus deu à mulher de carregar a vida por 9 meses em seu ventre, amamentar e entregar para o mundo”. A Yalorixá considera que as tradições acreditam que se o próprio criador deu autoridade de gerar vida à mulher, então ela é importante para a sociedade e a primeira no “comando” sacerdotal.

A palavra que traduz essas matriarcas é: cuidado. São mulheres líderes religiosas que cuidam dos seus e de todos. Mesmo com toda violência que sofrem por conta do racismo religioso, a invisibilização de sua existência, elas estão sempre disponíveis para cuidar de quem pede ajuda. É o que relata a mãe Fernanda Machado, yarobá do Ilè Asè Magbá Biolá, “nós mulheres de candomblé, somos em maioria liderança em casas de matriz africana quando não yalorixás , somos yarobas, yakekere, yalaxé e tantos outros cargos importantes dentro do candomblé. Somos, na maioria, mulheres articuladas nas políticas de nossas regiões nos nossos bairros e comunidade, cuidamos não só da espiritualidade da população local, como também fomentamos a educação, identidade e dignidade”.

A origem do matriarcado

Segundo estudos históricos e antropológicos, a importância do feminino se faz desde os primórdios da civilização humana. Muraro (1993, p. 5) afirma que: “segundo a maioria dos antropólogos, o ser humano habita esse planeta há mais de dois milhões de anos, […]. Nessas sociedades não havia necessidade de força física para a sobrevivência, e nelas as mulheres possuíam um lugar central”. Nos primórdios, a sociedade era matriarcal, com a mulher como o centro, na liderança, pois entendiam-na como um ser divinizado por gerar a vida. Nesse tempo, não se entendia do processo de reprodução e como a mulher quem gerava o ser, para eles ela era divina, portanto, era o centro da sociedade e liderança perante a humanidade da época. 

“O primeiro e mais importante exemplo da primeira etapa em que a Grande Mãe cria o universo sozinha é o próprio mito grego. Nele a criadora primária Géia, a Mãe Terra. Dela nascem todos os protodeuses: Urano, os Titãs e as protodeusas. Entre elas as quais Réia, que virá a ser a mãe do futuro dominador do Olimpo, Zeus.  Há também o mito nagô que vem dar origem ao candomblé. Neste mito africano, Nanã Buruquê que dá à luz a todos os orixás, sem auxílio de ninguém.” (French (1985) apud Muraro (1993, p. 8))

Nas religiões de matrizes africanas, especialmente nos candomblés, a imagem da Grande Matriarca é perpetuada a partir dos orixás femininos, as Iyabás, que representam elementos primordiais da origem e sustentação da vida, como por exemplo, Nanã Buruquê, a mãe de todos os orixás. Yemanjá, a partir do elemento água, é o início da vida: a umidade na fecundação e o líquido amniótico; Oxum, representando, o segundo momento: o cuidado materno; E Iansã, a guerreira que luta na busca pelo sustento da família.

O surgimento do patriarcado

Com o passar do tempo, o aumento das comunidades, houve a necessidade de se utilizar a força física para buscar alimentos e, assim, o homem saiu e tomou conta da vida externa. A partir daí, a sociedade passou a estruturar-se com o homem no centro do poder social e de provisão do alimento. Nasceu a sociedade patriarcal. No entanto, esse modelo social trouxe desigualdades e subalternidade para a mulher que deixou de ser vista como um ser divinizado para ser inferiorizado. Assim, junto do patriarcado nascem as desigualdades.

Apesar de desenvolvidas dentro da sociedade ocidental patriarcal e racista que subalterniza mulheres e pessoas negras, as religiões de matrizes africanas conservam a tradição matriarcal. Isso se dá pelo fator histórico de busca por liberdade, onde as mulheres conseguiam conquistar primeiro e lutavam por manter sua cultura religiosa, bem como cuidar dos seus em seus terreiros. A africaneidade resistiu e resiste apesar das opressões sofridas até os dias de hoje. E assim, buscam manter viva sua cultura e tradição.

Referência bibliográfica:

MURARO, Rose M. Breve introdução histórica. In: FRAMER, H.; SPRENGE, J. M. Maleficarum. O martelo das feiticeiras. Rio de Janeiro: Rosas dos Ventos, 1993.

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

Tradição griot: aprendendo na oralidade com minhas referências femininas do axé: Mãe Baiana, Yarobá Fernanda, mãe Cícera.

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