Criando filhos antirracistas

Numa sociedade patriarcal e machista é difícil buscar educar crianças num sistema antirracista e com igualdade de gênero.

Segundo a Academia Americana de Pediatria (AAP), crianças começam a aprender sobre questões raciais desde muito cedo com seus pais, num processo muito similar ao do aprendizado linguístico.

Estudos mostram que as crianças conseguem distinguir características raciais e de gênero antes mesmo de aprender a andar. Entre 2 e 4 anos, internalizam vieses raciais. Num estudo com crianças de 3 anos, por exemplo, pesquisadores mostraram fotos de diversas crianças e perguntaram de quem elas queriam ser amigas; 1/3 das crianças negras disseram que queriam ser amigas apenas das crianças negras, ao passo que 86% das crianças brancas disseram querer ser amigas apenas das iguais a elas. Segundo um outro estudo, aos 6 anos elas tanto já entendem que há uma hierarquia racial, como podem elas mesmas já se engajarem em estereótipos racistas diretos.

A educação é uma das mais poderosas ferramentas de combate às violências e com o racismo e o machismo não seria diferente. Na luta por igualdade de gênero e raça é preciso começar da base e educar nossas crianças não apenas a não serem racistas ou não absorver as violências do racismo, mas a serem antirracistas. Porque a máxima de Ângela Davis é muito importante para uma sociedade que ainda reproduz boa parte da construção racista “não basta não ser racista, tem que ser antirracista”.

O primeiro passo é não se silenciar ou fingir que o problema não existe. Como diz Djamila Ribeiro no Pequeno Manual Antirracista, “reconhecer o racismo é a melhor forma de combatê-lo” e é preciso não ter medo das palavras “branco”, “negro”, “racismo”, “racistas”. A partir do momento em que, nós, pais, reconhecemos e falamos sobre isso, damos o primeiro passo para construir junto dos nossos filhos uma nova história. E, assim, além de formar cidadãos que conheçam esse problema social, ajudamos a formar seu caráter antirracista fazendo-o ganhar autoestima, poder e um agente de transformação social desde sua infância. Não precisamos criar grandes ativistas, mas cidadãos conscientes e que não permitam que o racismo aconteça, além de não reproduzi-lo.

O reconhecimento deste problema vale tanto para a criança negra, na intenção de empoderá-la, quanto para a criança branca, para que não reproduza racismo. A luta antirracista é de todos e não apenas de negros.

Para que as crianças sejam criadas de forma antirracista, é preciso que os pais tomem consciência. E para isso, é preciso ler, se informar e entender a sociedade brasileira construída no racismo estrutural e combater essas ideias preestabelecidas. Quebrar os próprios preconceitos não é fácil, mas é necessário quando se quer criar crianças antirracistas e pretas empoderadas. Uma das formas de saber mais sobre essa história é ler. Há muitos livros que nos mostram como o racismo foi sendo construído no nosso país e no mundo. Na obra de Djamila Ribeiro, por exemplo, ela reconhece ser impossível não ser racista tendo sido criado numa sociedade como a nossa. “É algo que está em nós e contra o que devemos lutar sempre”, escreve. Ela aponta como a história dos negros foi sendo contada por muitos e muitos anos no Brasil, tornando o país estruturalmente racista.

Também é importante cobrar da escola uma educação pela diversidade. Embora a lei 10.639/03, que obriga o ensino de história e cultura afrobrasileira, tenha sido aprovada desde 2003, ela pouco é implementada de fato. Cobre da escola esse ensino e a educação para a diversidade desmistificando alguns preconceitos como a religiosidade, a musicalidade, algumas palavras criadas sob a estrutura racista, etc.

Criando crianças pretas empoderadas

Leitura empodera, então leia autores negros, histórias negras onde o protagonismo positivo é de pessoas negras, leia a cultura negra, leia coisas que façam sua criança gostar de tudo o que é do negro, desde sua estética até sua cultura. Mostre que existem intelectuais negros. Dê uma referência. Lembre-se: representatividade importa.

Assistir filmes que tenham referências negras também ajudam sua criança a enxergar que ela também pode alcançar. Além disso, filmes que falem sobre o racismo ajuda ela a entender sobre o assunto.

Questione-se. Nós pais precisamos analisar nossas atitudes o tempo todo e ver se estamos tendo atitudes racistas é importante, pois nossos filhos podem reproduzir isso. Então questione-se. Estou sendo racista com essa fala ou atitude? Analise e modifique caso esteja.

Fale sobre privilégio racial. As crianças podem sim entender esse assunto. Adapte sua linguagem e mostre a ela que existe privilégio na sociedade de acordo com a cor da pele. O privilégio branco. Que independente da classe social, numa sociedade racista sempre vai existir.

Conte a verdadeira história da escravidão. Pessoas negras não foram escravas, foram escravizadas e tiveram suas lutas contra esse sistema desde o começo. Nunca esteve em papel passivo e sua liberdade não foi concedida por uma princesa boazinha, mas na base de muita luta, resistência e combate.

Criando crianças negras empoderadas e todas antirracistas criaremos uma sociedade mais equânime para o futuro. Mas isso depende de nós, pais.

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