Iphan registra primeira celebração religiosa afrobrasileira como Patrimônio Cultural

Bembé do Mercado de Santo Amaro (BA) é a primeira celebração religiosa de matriz africana a ser reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Iphan

No dia em que se comemora dia de Santo Antonio, sincretizado com Exu – o senhor dos caminhos -, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) concedeu o registro do Bembé do Mercado de Santo Amaro, na Bahia, no Livro de Registro das Celebrações como Patrimônio Cultural do Brasil. É a primeira celebração de matriz africana registrada pelo IPHAN.

Para o Pai Pote, Babarolixá do Terreiro Ilê Axé Ojú Onirè e líder do Bembé, esse registro representa, não só para a comunidade local, mas para toda a comunidade negra e minorias políticas, uma conquista histórica por reconhecer a história de resistência e considerar a cultura dos povos tradicionais de matrizes africanas daquela região um Patrimônio Cultural de todo o Brasil. “Esse título não representa só pra mim, representa para a comunidade negra, onde o Bembé do Mercado tem 130 anos, hoje foi registrado como patrimônio do Brasil. Isso fortalece, não só o movimento de mulheres, de homens, o movimento LGBT como os terreiros. Na circunstancia política que estamos passando hoje, pra gente é importante isso. Uma votação por unanimidade do Conselho do Iphan aqui em Basília, isso é importantíssimo.”, afirmou emocionado o Babalorixá.

A professora da Universidade do Estado da Bahia, Ana Rita Araújo Machado, foi uma das pesquisadoras do Bembé do Mercado que possibilitou o título dado pelo Iphan. Ela atua diretamente em todos os terreiros que compõe o Bembé e acredita que esse marco histórico colabora para o aprofundamento de políticas públicas afirmativas para a comunidade local de terreiro. “Essa é a possibilidade de começar a aprofundar e discutir as questões de políticas públicas, de ação afirmativa para o povo de santo. Em Santo Amaro, na região do Recôncavo Baiano, é uma região onde as pessoas negras e de terreiro vivem em alta vulnerabilidade, onde precisa melhorar as condições de acesso a saúde, educação. Então isso é o que significa pra gente. É a possibilidade de acessar o estado”, afirmou a professora.

História do Bembé

Acredita-se que a palavra “Bembé” designa genericamente “Candomblé”, logo, Bembé do Mercado significa o Candomblé que é realizado anualmente por um conjunto de terreiros no Largo do Mercado da cidade de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano.

Esse “Candomblé de Rua” teve origem em maio de 1889, um ano após a abolição da escravatura no Brasil. Foi uma forma de celebrar a liberdade, a religiosidade, mas também protestar contra as condições a que os negros foram libertos da escravidão, sendo excluídos da sociedade e negado seu lugar nas ruas. Por isso, o Bembé ocupa as ruas do Mercado Municipal e celebra o dia 13 de maio, dia da abolição da escravatura, de forma a mostrar seu protagonismo cultural, resistência religiosa e tomar a fala e seu lugar nas ruas e na sociedade.

Quem deu início a essa celebração foi o líder religioso da época, o pai de santo João de Obá, cujo nome indica o seu vínculo com Xangô – divindade zeladora da justiça -. Do ponto de vista religioso, esse gesto constituiu um agradecimento às forças divinas pela liberdade e pela sobrevivência, a despeito do abandono a que foram submetidos na pós escravização. No âmbito político, foi um gesto de coragem e afirmação do direito do povo negro recém-liberto. No aspecto cívico, a reafirmação da manutenção de sua cultura, um gesto de resistência.

A chancela do Iphan dando o título de Patrimônio Cultural do Brasil corrobora com essa resistência, engrandece o povo negro e abre portas para a luta contra o racismo religioso que ainda assola o país.

O dia 13 de junho de 2019 é um marco histórico a ser comemorado que mostra que a luta negra está tendo resultado e muito ainda há por fazer no combate ao preconceito.

União é a palavra que resume o povo de terreiro de Santo Amaro. Essa união criou uma celebração fraterna com a participação de 42 terreiros do recôncavo baiano. A união fez o Bembé se manter vivo há 130 anos. E união deve ser a palavra proferida e concretizada pelo povo de terreiro de todo esse país. Para que conquistas como essa se façam concretas todos os dias.

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