Quem tem medo do feminismo negro? Uma reflexão

A cada linha do livro da Djamila Ribeiro, “Quem tem medo do feminismo negro?”, uma reflexão.

É bom saber que não estamos sozinhas, quem muitas mulheres sentem o mesmo que nós. Dá um sentimento de “não estou sozinha, não é coisa da minha cabeça”. Muitos dos ataques relatados por Djamila são coletivos quando achamos que era apenas conosco. Isso mostra que de fato não é coisa da nossa cabeça. É racismo agravado pela discriminação por gênero.

Por outro lado, é muito triste saber que o racismo contra a mulher negra é algo recorrente e naturalizado pela sociedade. O meu sofrimento é aceito pela sociedade simplesmente porque sou mulher e negra. E ai de mim se reclamar! É tachado de mimimi, vitimismo, frescura e outros rótulos mais. E essa é uma forma de violência exercido para nos silenciar.

Mas vamos ao livro porque acho importante ressaltar aqui alguns trechos que me identifiquei quase chegando a chorar.

“Durante muito tempo, tive receio de passar perto de grupos de adolescentes. Quando criança, fui alvo de piadas e chacotas por ser negra. Era inevitável ouvir alguma gracinha do tipo: “Olha sua mina ai, não vai me apresentar?”, ao que o garoto que era “alvo” se defendia: “Sai fora!”. Ter uma namorada como eu era algo impensável. (…) Para eles, eu era só uma “neguinha”, alguém que merecia ser ridicularizada e deixada de lado. Esse receio me acompanhou até o início da fase adulta. E o que as pessoas diziam? “Deixa pra lá, é só uma brincadeira”. Toda a sociedade concordava com aqueles meninos: eu não me via na TV, nas revistas, nos livros didáticos, em minhas professoras.” (Pg. 30)

Ao ler esse trecho eu quase chorei. Porque quando somos crianças sofremos esse tipo de violência que acaba com a nossa autoestima. Em outras meninas a autoestima sequer é construída porque a violência já vem da família. Esse foi o meu caso. Travestido de “deixa de ser boba, é só uma brincadeira” eu ouvia chacotas dos meus próprios tios que me chamavam de menino lobo, cabelo Bombril, cabelo esvoaçado, brigou com o pente e coisas similares. Preciso ressaltar que essas chacotas vinham da família de minha mãe, onde a maioria é branca. Uma menina sem autoestima por sofrer esse tipo de violência na própria família, vai para uma escola particular, como bolsista filha de professor. O resultado não podia ser pior. Nessa escola, mesmo sendo muito criança, na fase de alfabetização, a violência vinha por todos os lados. Das crianças com “brincadeiras”, com violência física e dos próprios professores, pois aqueles que não se omitiam fingindo não ver nada, concordavam com as chacotas afirmando “mas você não é mesmo?”. Hoje em dia não aguentou ouvir o nome “Colégio Marista” que já me vem a mente tudo o que aconteceu e a péssima construção social que me fizeram. Eu era muito pequena. Só fiquei lá até a pré-escola, mas me lembro de tudo. Até dos nomes das pessoas. Pois foi uma violência que marcou, detonou minha autoestima. Me achava feia e incapaz porque era isso que me era mostrado o tempo todo e corroborado pela minha família. Devo lembrar que a única pessoas da família que não fazia isso era minha mãe (branca), pois meu pai (negro) por várias vezes pedia que alisasse o cabelo numa tentativa de “me ajudar” a ser aceita pela sociedade. Creio que o alerta de minha mãe de que meu cabelo era lindo e até mostrar formas (violentas) de me defender me salvou e me ajudou a olhar para outro lado e usar todo esse ódio pela minha cor ao meu favor. Mas eu fui uma exceção. Grande parte das meninas que sofrem esse tipo de violência, carregam a baixa autoestima para o resto da vida e se mutilam, assim como meu pai queria, tentando ser aceitas pela sociedade.

“Uma mulher negra com cabelo crespo comumente ouve piadas e é discriminada. No carnaval, a mesma pessoa que nos ridiculariza quer vestir “fantasia” para seguir nos ridicularizando. (…) Não somos fantasias de carnaval – não podemos ser ridicularizadas ou tratadas como meros corpos que sambam e rebolam. Respeitem nossa humanidade”. (Pg. 50)

Muitas pessoas questionam porque não aceitar o blackface ou a peruca da “nega maluca” no carnaval. Eu te falo: porque é uma forma de nos desumanizar, diminuir e ridicularizar. Blackface era usado em épocas em que negros não podiam participar do teatro. Ou seja, teatro de opressão. A peruca black power ou, como costumam chamar os racistas “cabelo de nega maluca”, é a estereotipia racista. Pois usam a peruca black power chamando de cabelo de nega maluca para nos ridicularizar. Meu cabelo é crespo e eu não sou maluca. Isso é uma forma de retirar a beleza da estética negra a perpetuar o padrão branco de beleza. É por causa dessa estereotipia que muitas mulheres alisam seus cabelos na tentativa de não serem chacotadas e serem aceitas pela sociedade.

Certa vez estava eu andando no shopping com meu black solto. Chegaram umas pessoas atrás de mim e começaram a rir bem alto de forma que todos ouviam e diziam que eu parecia a nega maluca com aquele cabelo e perguntavam se eu havia brigado com o pente. Coloque-se no meu lugar. Como se sentiriam numa situação dessa? Saiba que essa “fantasia de carnaval” da “nega maluca” só reforça esse tipo de atitude claramente racista.

“Eu já havia percebido que uma mulher negra empoderada incomoda muita gente – basta perceber os olhares e os comentários de algumas pessoas quando veem uma que não se curva às exigências de uma sociedade racista e misógina. É muito comum ouvir xingamentos do tipo “Que negra metida”, “Essa negra se acha” ou “Quem essa negra pensa que é?” quando saímos do lugar que a sociedade acha que é nosso”. (Pg.58)

Após ser trabalhada por uma escola onde passei meu ensino médio, aprendi a me amar, amar minha cor e minha cultura. O ensino contra o preconceito foi muito importante para mim. Tornei-me essa mulher empoderada, que busca um lugar de fala e que fala. Que luta contra o racismo. Com isso, outros problemas vieram. Uma mulher negra, empoderada, pós-graduada assusta e incomoda. Quantas vezes já ouvi o mesmo que Djamila descreve em seu livro. Hoje eu sou a negra metida, que se acha, que por onde passo perguntam “quem essa negra pensa que é?”. Porque a sociedade acha que mulher negra tem que ser subalterna. Não pode crescer, não pode se formar e muito menos ser pós-graduada e ter um bom emprego e renda.

Um dia estava eu andando pelo Setor Comercial Sul, quando trabalhava como assessora de comunicação num sindicato. Esbarrei com uma ex-vizinha. Quando falei que estava ali trabalhando ela perguntou “em que loja?”. Sabe por que a pergunta foi em que loja ao invés de onde? Porque, segundo a sociedade brasileira racista, uma mulher negra não pode ter um emprego de ensino superior. E quando uma mulher negra que morava na periferia de uma cidade do entorno ia conseguir se graduar, né? Sabe o que é isso? Racismo!

“É urgente que pessoas brancas discutam racismo pelo viés da branquitude, que se questionem. Que reflitam e perguntem a si mesmas: quantas vezes contribui com a baixa autoestima da minha amiga negra ao fazer piadas sobre o cabelo dela? Quantas vezes fui obstáculo no sonho de uma pessoa negra por achar que filha de empregada doméstica não pode fazer faculdade com meu filho? Quantas vezes internalizei que mulheres negras deveriam me servir em vez de entender que são empurradas a isso por conta do racismo e do machismo estruturais?” (Pg.70)

É muito importante que a luta contra o racismo não seja só de negros e índios. O arquétipo opressor precisa se analisar para mudar. Apenas engajar em hastags não adianta. É preciso mudar sua atitude. Faz piadas que inferiorize um grupo étnico? Não faça mais. Porque essa piada não fere só a pessoa, mas todo um grupo e isso carrega viés histórico de sofrimento e opressão por isso se torna tão grave. Piada discriminatória é racismo e não engraçado.

A causa negra não é só do negro, é da sociedade brasileira. Você, branco, precisa também pensar no racismo com um problema seu, se analisar, e mudar qualquer comportamento que seja passível de racismo ou misoginia. O racismo acontece com todos os negros, mas o racismo contra a mulher negra é ainda mais intenso, duro e opressor. Porque carrega as amarras do machismo associado ao racismo e isso doi há gerações. O racismo e a misoginia só vão acabar quando nos assumirmos racistas e machistas e trabalhar para que isso mude.

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